sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Coisas da vida

Cantatas                               Já não soam
Sorrisos                                Já não brilham
Abraços                                Já não se dão

Pregões                                Não se ouvem
Luzes                                   Que se fundiram
Ribalta                                 Que as vozes se calem

Serões                                 Que já morreram
Cansaços                              Que atordoam
Delongas                              Que se esperam

Tristezas                               A florescer
Pendências                            Por resolver
Ausências                              Que se amontoam

Conversas                             Que se repetem
Olhares                                 Que não evitam
Angústias                              Que recrudescem

Incertezas                             Que não mentem
Desassossegos                       Que denotam
Parcimónias                           Que se redobram

Evidências                             Que demonstram
Carências                              Que se evitam
Fugacidades                          Que se perpetuam  

28/12/2012, (13h:02')                                   

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

À Luísa Vale - (uma larista na Praça José Fontana)

Nos chifres de um touro
Teu olhar ficou preso
E na graça desse louro
Teu coração não saiu ileso

Olha o garbo desse pegador
Estudante agrónomo de profissão
Entregaste-lhe o teu amor
- Cadê do teu coração?

Não chores, loira bonita,
Teu amor tresloucado
Alegra essa cara bonita
Não manches esse rosto pintado

Sê mulher com mais força
Iça bem tua cabeça
A juventude não se destroça
Com tão grande tristeza

Não faças da tua dor
Um inconfessável fracasso
Olha que a dor maior
É ter-se a alma em pedaços.

Mas que graça que ela tem
Quando sorri e canta
Mas quando a saudade vem
Ela espantá-la não tenta

15/01/1972, (23h:35')

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Natal de muitos Natais

Uma árvore de muitas bolas
Coloridas, tremeluzentes. Neve,
Fictícia, ondeando pelas olas
Do pinheirinho verde e breve

Onde se alcandora a brilhante
Estrelinha da paz, da harmonia.
Presentes, muitos, o bastante
Para nos encherem de alegria

Na manhã que irá nascer
A 25 de Dezembro
Serão abertos com prazer
E encanto por cada membro

06/12/2012, (19h:30')

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ao sorriso (da minha mãe)

Outro repto - a um / ao sorriso.
Tive que perfigurar o de alguém - revi o da minha mãe, dos mais lindos que conheço.

Com o teu sorriso
Sinto o Sol sempre a brilhar
Abrem-se janelas de improviso
Deixando o Sol entrar

No teu sorriso
Rasgam-se todas as tristezas
Soltam-se amarras num riso
Voam p'ra longe incertezas

Com o teu sorriso é
Que me sinto renascer
Como se tudo, até,
Não pudesse fenecer

Alegria, paz, lenitivo
Sinto sempre que preciso
Quando sorris. Vivo
A vida num sorriso

04/11/2012, (22h:00')

Lançaram-me um repto...

... que, muito embora considere um deboche, não quis deixar de participar, ainda que não haja um outro a quem destinar sensações destas. As fruições, de tão íntimas e pessoais, deverão ser recatadas.
Orgasmo(s) gosto deles sem falos, no prazer das palavras que as minhas lucubrações permitem.
O corpo do outro é sempre a busca do prazer egoísta, da satisfação pessoal.
O "corpus" é (muita) outra coisa - esparge sensações múltiplas, abrange áreas diversas, repercute-se diversificadamente em cada um de todos os outros, e, sobretudo, regista-se e nunca se esquece.

Mas... aí está - inventar é preciso:

Queimei meus olhos
De tanto te desejar
Ficaram-me só os abrolhos
De uma saudade sem par

Quis-te como se quer o ar
Que se respira e evola
No meu corpo de viola
Foste o meu eterno mar

Sofri, amei, solvi
Fruições sem par
Que, porque quis, senti
Quando me decidi a amar

Se amor se pode chamar
Todo o frenético amplexo
Em que me deixei mergulhar
Na complexidade do sexo

Depois restou o espasmo
Do meu corpo a desejar-te
Em múltiplo, fluido orgasmo
No meu corpo, teu baluarte

De dia, à noite, ao luar
Vem, corre p'ra mim
Dir-te-ei sempre que sim:
Meus orgasmos te quero dar.

03/11/2012, (08h:25')

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Não me importa...

Não me importa já se vou se fico
Não me incomoda já a fumaça
Que se evola nas minhas lucubrações
Não me indago já das incertezas
Não luto já por mais certezas
Está tudo feito, está tudo sonhado
E nem já a esperança me acalenta
O ritmo das minhas emoções
Quedo-me nas palavras que mimo
Aos gestos inconsequentes de absoluto
E prolongo-me em êxtases revivalistas
Nos siderais diapasões das minhas soltas vivências
Sombras, sigilos, repercussões,
Poses, reflexos, penumbras,
Crepúsculos, gaivotas, evoluções,
Silêncios, cadências, orações
E mundos ignaros, silentes,
Cinegéticos de cinestesias, dolências
Marés de vagas inventadas
Batéis, romarias, terraços,
Ribalta, luzes, guitarras
Timbres que imergem e me transportam
Nos esquarteirados espaços das fechaduras das portas
Trancas, ferrolhos, grilhetas
E esta liberdade que mede
Imagens fortuitas de forjadas realizações alheias
Balanço, quebranto, perdas
Regresso de fugas constantes,
Lugares vazios de assoberbados
E um desânimo morronhento
Que esparge lassidão,
Desencanto, frustração, dor
Na minha plenitude extemporânea
De entendimento dos porquês

23/08/1984, (13h:58')

Cansaços...

Cansaços, canseiras, azáfamas
Ditames, intenções, recusas
Angústias, agastamentos, fúrias
E tudo para deglutir a vida
Num dia que corre, e célere se escoa
Deslizando no encanecer da minha juventude
Esvaindo ternuras, mimos, querenças,
Calejando nos lábios palavras sôfregas
Que se transmutam já de camarinhas
Soltas, esparsas, difusas
Num interlúdio de baqueações
Que soçobram vontades, desejos e sonhos

23/08/1984, (12h:30')

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

(Queria fugir...)

Queria fugir, queria amar...
Queria fugir, deixar-te e sofrer por ser cobarde,
Mas o amor - (será?) - deu-me asas
E eu fiquei perto, tão perto de ti...
Senti vibrar em mim frenéticas sensações,
Extáticas volúpias
E esqueci... esqueci o mundo...
Longe bole tudo o que deixei,
Para ficar ave contusa repousando nos teus venosos, libidinosos amplexos.
Senti próximo o céu da minha louca felicidade,
Senti poisar, em haustos desenfreados, ósculos esterlinos -
Sim: dentro de mim sinto deflagrar-se, colidir estrelas incandescentes de paixão,
De desejos longamente contidos
E fiquei ave acéfala, queda
No onírico ninho de ternura arrastada,
Saciada dos teus braços, da tua boca...
Algo transcendente me banhou o seio de aceso ardor de me sentir tua -
Ou será que tu e eu seríamos uma simples imagem,
Uma irreal quimera difusa, fundida em estreitíssimo amplexo?
Sei só que fiquei,
E hoje só sou "Tu - e - Eu"!

05/08/1971, (14h:00')
- arremedo composto três dias depois do meu desfloramento - uma situação confusa para mim,que me prostrou, com o corpo todo "partinho", como se me tivesse exercitado duramente para os jogos olímpicos - do prazer nada ficou: dores, uma forma estranha de invasão, de violência; estive sempre expectante, tentando perceber o jogo dos nossos corpos, e como conduziria tudo isso ao clímax: "ave acéfala"?!...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Silêncio, Saudade e Morte"

Encerraste-te, recluso no teu orgulho de macho,
Talvez ferido pelo meu egoísmo descontrolado,
Mas eu sei, e tu também,
Que um dia, distante ainda,
Um dia, seremos a sombra um do outro,
Que os nossos passos se encaminharão para a bruma do esquecimento,
Que tudo será então o Passado, infrutífero, improfícuo, nulo
No tempo que desliza sôfrego em direcção vertical à câmara silenciosa da Morte
E que, nesse Passado-Presente-Futuro,
Eu pretenderei preterir momentos que jamais soarão iguais
E só me restará a Saudade amarfanhante de Ti, de Mim, de Nós.

25/10/1971, (00h:15')

domingo, 8 de julho de 2012

(Ah! Os outros?!...)

Parênteses: título hoje aventado, 08.07.'12

Aconteceu passar por mim uma "sombra" mais: quatro dias passaram - Domingo de Páscoa!
Cansada de jazer como quem espera Godot desassossegadamente, saí para o Sol, fui ver a vida, o que dela se projecta nos outros - é a Baixa, são os "street-lancers", é o espectáculo dos espectros humanos que pavoneiam, (ou fingem que sim?!...), empatias. E eu, que perescruto, olho à direita, depois à esquerda e busco... estar menos só, ou sentir que sou menos sombra que os outros.
Regresso: silêncio, solidão à minha volta: é agora a Rua dos Fanqueiros, ou da Prata? Que importa?!
Alguém se cruza, olhou, olhei - um espectro mais.
Abordam-me e penso: "já tenho programa".
Tive mesmo: estranho, "sincero", (?), para cantata de "conto do vigário" - abalou-me, mas estragou tudo quando tentou "passar aos actos" - erro sem remédio!...
E o balançar da minha dúvida expectante desfez-se; quis esquecer e ainda lembro - esta impressão de imagens, a câmara escura das minhas sensações - sensações? - devolutas registou. imprimiu, fixou, e lembro.... mais que tudo, que bom teria sido se pudesse ter sido possível não ser tão verdade a certeza da "cantata" - "um amigo", pensei durante horas: desfeito em nada, ou talvez frustrações, um minuto bastou - um comissário de bordo que voou, melhor, quis voar para terra ignota e aterrou mal - derrapou, chafurdou na berma da pista e me salpicou de limalhas que se fundiram em pose, em "flashes" depois, e, sobretudo, esta inapetência inapetecível, e, sim, "jazzo"... é Godot que tarda no absurdo da minha teimosa quietação.

07/04/1994, 5ª-feira, (19h:49')

(Destemperanças)

Parênteses: o título foi atribuído hoje, 08.07.'12.  Quando escrevo, relego o que poderá ser considerado de "apelativo" - escrevo para mim, (que ainda me considero profundamente genuína!).

Cheguei há mais de uma semana do Algarve, onde passei uns dias "chatos" de tanto ser alvo de depreciações e amodorramento do meu "ego" e da minha auto-estima: uma verdadeira lástima! Espero há uma semana resposta a uma carta que enviei para Leiria: nada de nada - farto-me de falar sozinha: o "sonho" desfez-se; não vale mesmo a pena ainda crer que ainda é possível encontrar alguém de geito?!... Ainda que pouco estimulante, todo o tempo com o Zé Pedro era uma "satisfação" para o meu "ego": saía, contactava alguém que, presumivelmente, poderia vir a ocupar um espaço, (limitadíssimo, apesar de tudo), na minha vida: a "vidinha" limitada, os interesses limitados, as conversas bacocas, cansativas, repetitivas, limitadíssimas e estreitas; mas, enfim,... era um homem... cansativo, "estafante", chato, pouco interessante sociologicamente falando, (já que se crê o "supra-sumo" e "um homem com H maiúsculo, do que esperei sempre ver aflorar qualquer coisa que provasse qualquer destas "banhas da cobra" - nada: ficaram goradas todas as minhas expectativas!). Um homem sem surpresas interessantes, linear, "inculto", até, a meu ver.
Mas... Haja Deus! Que me despertou para a vida, para os meus interesses há muito relegados - há tanto para fazer todos os dias, e o tempo escoa-se sem me dar tréguas. Apesar do desinteresse pela casa, que está num "estado de sítio" completo, ainda arranjo ânimo para ir, devagarinho, pouco a pouco, revitalizando o meu espaço vital: preciso de côres novas, de panorâmicas novas, de ares remoçados, de paredes mudadas - é tudo isto que estou a tentar fazer. Queira Deus que eu resolva a questão do telhado para resolver o levantamento das alcatifas e a pintura das paredes! O resto, "areado", limpo, forrado, lustrado, aguenta-se.
Mais um ano lectivo se avizinha e há muito para limpar naquele meu sótão - e renovar, também!
Nem 10 Zés Pedros, (que, mesmo assim, seria pouco para "fazer" um homem ao meu gosto?!...), serão suficientes para mudar-me, ou alterar o meu rumo.
"Ciao", ilusões perdidas; boa noite, tristeza;dancemos com as horas, ao sabor da brisa das palavras!

28/08/1998, (23h:23' +/-)

sábado, 26 de maio de 2012

Um conto de quando em vez (excertos)

Encruzilhadas
Conheci em tempos um casal, que admirava sobremaneira - eram como o reflexo um do outro, a continuação do espaço por preencher um do outro.
Almas gémeas, como sói dizer-se, é outra coisa - são simultâneos, saco e baraço.
Estes dois seres eram consentâneos, inesgotáveis, causas e consequências um do outro: complementos perfeitos.
.........
Admirava-os como se admira uma obra de arte:
- não era o corpo, (apesar de vistosos e interessantes, os dois);
- era outra coisa, secreta, deles, que se projectava com a força da sua relação.
Ela, vivendo uma relação doentia, até ao extremo, decidiu que , "ou dava fim à vida, ou o primeiro homem que lhe aparecesse numa esquina a levaria a quebrar amarras".
Ele, solteirão empedernido, preferia o convívio com os amigos; "elas eram um perigo, e um possível declive sem objectivos que o preenchessem, um declive em plano bastante inclinado, e sem retorno. Preferia estar na sua e na dos amigos".
Decidiu-se ela, desesperada, um dia, a sair, sem bem saber para onde.
Cruzaram-se numa esquina, (mesmo!).
.........
Ele seguiu-a com o olhar. Procurou-a vezes sem conta. Encontrou-a.
Um chá hoje, um café depois, foram trocando experiências, conversas, palavras que pretendiam aligeirar recordações.
Decidiram juntar os trapos. Foi difícil, devido à relação dela: uma luta insana, com ameaças pelo meio, polícia, tribunais - "ossos duros de roer".
..........
Passou-se isto tudo durante as convulsões após 25 de Abril - tempos difíceis?!...
Encontrei-os recentemente.
A mesma luminosidade irradiante, a mesma harmonia.
Ainda vale a pena acreditar que temos "um sol em cada esquina"!

20/03/2012, (01h:18')

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Acreditar

Quis de novo acreditar
Nos outros, nas coisas, na vida
Encontrei mais razões p'ra duvidar
E vou, assim, temperando a dúvida

Não quero mais saber
Se vou por aqui, ou por ali:
Vou... até a alma me doer
Nas sombras do que vivi

Num tempo em que supus
Que me davam, como dava:
Foi preciso que se desfizesse a luz,
Que trazia comigo, e me consolava

Hoje estou num qualquer espaço,
Num qualquer dia, a qualquer hora:
Sobrevem sempre um cansaço,
Que se avoluma na demora

Nos entardeceres desencantados
Em que mergulho como penumbra
Já gasta de tantos enfados - 
A vida já não me deslumbra

04/05/2012, (19h:03')

sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Pois assim se fazem as coisas!", Mestre Gil Vicente

Há momentos em que o mestre é, de facto, demasiado actual:
- por dois vinténs vendias as excreções, fotografavas vulvas e rectos cheios de esterco, rançavas em quartos de passe e camas de aluguer,"cantavas o fado a todas", velhas e novas, amigas ou inimigas, casadas ou solteiras... O sexo não tem bandeira, pois então?!...
- a minha consolação é só uma - há sempre descobertas pela "net", e certezas de que comportamentos desviantes não se mudam, se intrínsecos, congénitos.
- Descobri outras "virtudes", muito antes de tentares abordar-me farão dois anos.
- Tem dó: aproveita a vida que te proporcionam agora, e, com um poucochinho de respeito, não te atravesses no meu caminho, não faças voos razantes: há sempre uma adaga à tua espera, e a volta do destino - como "o fio de Ariadne"... isto, se "as voltas da maralha" não te obrigarem a ver o sol esfiapar-se por entre as grades, que bem conheces...

Olvidaste depressa o que
Levavas na maior?!
Ultrajavas, corrompias, prostituías, e
Arvoras-te, agora, em homem correcto,
Parecendo que nunca
Fizeste das mulheres da rua
Bestas da tua libido?!...
Andaste perdido em lupanares,
"Recebeste delas o papel",
Investindo "lavagens" (dele)
Em mulheres sem mancha,
Vazadouros - todas elas na mesma bitola! - dos teus lixos biológicos
Impelido pelo Caos da tua vida:
Lambeste, (e como gostas?!...),  excreções de qualquer uma,
Onde quer que fosse, ajoujado pela desídia e pelo vício

06-07/04/2012, (23h:52-00h:07')

- Acróstico invertido; não é uma dedicatória. É mais um dos meus "complaints" à vida que me ofereceu uma das maiores desgraças que me poderiam ter acontecido - um ser reles, mal-formado, odiento, do mais baixo calibre, que imaginar se pode. Nem a própria família o aceita. Amigos?!... Ah! Quantos me desaustinaram por causa dele - um "hacker" dos piores: tem destruído tudo o que de bom os outros possam tentar construir.
Avisei a amante de que persistia, depois de quatro anos de vivência com ela, (e sabe-se lá que mais?!...), em assediar-me passados cerca de cinco, de o ter banido da minha vida - dá-se por satisfeita: tem engenheiro, (com os cursos da Mondlane, claro! E, provavelmente, à custa da mulher, uma negra moçambicana, que pôs nas ruas da amargura cá por Lisboa). Seria uma benção dos céus, que o mundo se visse livre de tal aberração!
15/04/2012, (03h:18')

terça-feira, 3 de abril de 2012

Quadraturas de um putanheiro

Emporcalhaste a minha vida
Causaste loucura e dor
Não merecias a guarida
Que te ofereci sem supôr

Que eras um renegado
Perverso, doente, louco.
Querias um céu abençoado,
Quando dás sempre tão pouco

Amargura, angústia, cansaço,
Solidão, inveja e desamor
Descarregavas no meu regaço
Todo o teu inadmissível rancor

Por tudo quanto minaste,
Destruíste, desacreditaste
E, afinal, o grande traste
És tu, que nunca amaste!

Nem sabes o que isso é
- Serves o ódio e a revolta.
Chego a ter pena de ti, até,
De não conseguires dar a volta.

03/04/2012, (02h:54')

VERME!

Quis a vida e o destino
Que nos cruzássemos um dia
Vieste, de supetão, tirar o meu sossego:
Um olhar translúcido, fugidio,
Um livro aberto nas mãos,
Contando "estórias" sem alma,
Que, as tuas, nem o Diabo as queria?!
Adensaste em lágrimas corridas,
Pingadas, (hoje sei...), no ante-remorso:
Sabias o mal que me fazias.
Acreditei no chorrilho por desvendar...
Mas a vida, essa, nunca se engana!
Falou por ti, tanto mais quanto te esquivavas.
Fizeste de santuários, prostíbulos,
De Cristo, um trapo ensanguentado,
Da minha fé, uma loucura,
Da minha vida, um inferno.
Lavaram-se tibiezas, dúvidas
Na neve de dois anos seguidos,
Nas águas de três dilúvios,
Nos ciclones que me fustigaram
- Chegaram dos céus as verdades,
Limparam-se auras que enegreceste
Com palavras de morte e inquietação.
Deus deu-me sempre sinais:
Pedi que os seguisses:
Jamais foste capaz de ser...
E ainda dizes que és de paz?!...
Forjaste um mundo de pesadelo,
Quiseste que te amassem,
E cada vez mais te odiavam:
Resta de ti um nome consentâneo:
VERME!

03/04/2012, (02h:29')

terça-feira, 6 de março de 2012

Um Conto de Quando em Vez...

Julieta de Muitos Amores e Coração Doente

Telenovelas, revistas de "jet-set", quadraturas desmesuradas preenchem um corpo de mulher sem forma ou função apropriadas.
Tem marido, diz... Não lhe conheço ofício, faz anos.
Deita-se com ele, desejando outros, invejando o bem-estar alheio, quando está.
Percorre as noites dos arrabaldes, de filha a tiracolo, como isco para novas conquistas e presumíveis festanças - não se inibe de lhes dar a chave de casa, directamente, ou através das janelas traseiras, a horas mortas, supondo a vizinhança já toda a dormir o sono dos justos, (?!...)

                                     ... // ...      ... // ...      ... // ...      ... // ...

Quando para cá vim, nenhum dos dois trabalhava.
A casa vazia, por onde ecoavam as rodas dos triciclos, os berlindes, as bolas, etc...
De repente, de há um ano a esta parte, deu-lhe em rechear o vazio, das divisões e das paredes.
Enche a casa de gente para me dar cabo da cabeça, sabendo que, após dores de cabeça prolongadas, e/ou enxaquecas, tenho hemorragias.
Já cá morou, neste traste de cubículo que habito - deixou a casa num inferno: nem o Montepio se deu ao cuidado de fazer as devidas reparações e/ou substituições do material. Precipitei-me, dada a urgência em resolver o meu problema de residência por cá. Contudo, este facto não obvia falta de civismo, falta de educação e desconhecimento da "política de boa vizinhança".

                                      ... // ...      ... // ...       ... // ...      ... // ...

Jantar, nunca há; fins-de-semana são dias de jejuar - não fosse a escola e o emprego, nem filha, nem mãe comiam nunca.
Mas ganham os chineses com a farrapagem produzida em série, e ganha o lerdo do marido, quando cá está, com jantares nos restaurantes(-bem) dos arredores.

                                      ... // ...      ... // ...      ... // ...      ... // ...

Há quem fuja de se cruzar com ela - não entende, e assume-o.

06/11/2011, (21h:18') 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Corso dos Malditos

O Carnaval veio mais cedo
E trouxe toda a bimbalhada
Que quis participar no enredo
Desta louca carnavalada

Vieram gebas, xulos, toleirões
Vieram todos de mãos dadas
Vieram todos os cabrões
Mai-las gordas avacadas

Coitadas: já não comem
Tantos doces, as labregas -
Dizem, agora, que já só fodem
E ficam, assim, sem pregas

As mulas até já pensam,
Que dizer que são casadas
Que o estado das coisas mudam:
Deixam de ser desbragadas!

                     ******

Deram agora em letradas
Entre chás e desgarradas
Coitadas... Até já dizem
Que sim, que são alguém!

Lêem Ary, Andrade e Camões
Trocam "mails" e cartões
Com bonecos e borrões
- Disfarçam, assim, os matacões.

Cheios de pseudo-literacia
(Mas não passam d'analfabetos)
Cobrem as paredes e os tectos
Com tamanhas aleivosias

Que dá pena, nojo e riso
Ver tanta falta de siso
Egos maiores que a cabeça
Onde cabe só a pobreza

De actos falhos d'intentos
Mas, vamos lá, tenham tento:
Oiçam-nos e vão-se fartar
De ouvi-los tentar poetar

Versos, rimas, canções,
Ditos, histórias, anichões!
Coitados: já são doutores
Com cursos d'outros autores?!

Mas não pedem licença ao mundo
Avançam, castram, imitam,
Em voz alta, ou em zumzum,
Que sim, produzem, e criam?!...


06/02/2012, (a aguardar despacho no IMTT#Laranjeiras) - até aos asteriscos
18/02/2012, (05h:06') - depois dos asteriscos




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(Sem Título)

Amar não é pecado
Também não é desventura
É, talvez, um acicato
A toda a minha loucura

Loucura de não poder
Viver sem ti um momento
Loucura de não saber
Onde está na vida o encanto

Encanto de rir e amar
A doçura de um abraço
Raiva de não saber olvidar
Este meu fastidioso cansaço

Cansaço de te querer demais
Saudades do que perdi
Desencanto, frustração - nada mais
Pelo que colhi de ti

26.02.1973, (16h:24')

Angústia

Este meu corpo frenente
de fomes já secas
Estas ânsias mordentes
de angústias exaustas
de haurir fontes de prazer
Estas minhas mãos dormentes
de ternuras cinzentas,
de sofredoras inanidades
Estes meus olhos silentes
de dores cansadas
Estes meus lábios sôfregos
de trémulas fragrâncias
Este meu desejo incontido
nos contrafortes do meu ventre
Esta solidão tenaz,
que me sussurra exangues lamentos,
me desnuda de medos,
me refaz de tristezas,
me acerba a melancolia,
e me diz, incauta, da surdez
na diáspora da minha insondável neurastenia
Um pasmo-espasmo
na sofreada vontade de construir o nada.

08/02/1984, (14h:15')

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

(Sem Título)

Que senti eu hoje, meu Deus!
Uma solidão enorme,
Uma frouxidão difusa de sentimentos confusos,
Uma espontânea glória, (?!...) -
De quê? - De mim!
Mas senti-me, sobretudo, longe,
Dispersa, leve e conscientemente só,
Perdida nas calhas da minha matéria
Indiferente da minha indiferença,
Triste da minha louca tristeza,
E... irremediavelmente só:
Nem eu, nem sentimentos, nem nada
- O vácuo da lassidão da vida
E um pouco mais de desprezo
- De quê? -
- Da indiferença imprevista,
Da confusão desgrenhada,
Do meu ego nulo e cansado,
De tudo e de nada:
Uma folha morta que resvala,
Resvala, resvala sempre só!
Isto, hoje, fui eu,
Insolitamente eu!...

22/03/1974, (02h:00')

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

UMA HISTÓRIA DE QUANDO EM VEZ...

(excerto)

Contos em Noites de Lua Cheia, "O Vale das Sombras"

- A(dal)berta Engana-Tolos

Enviuvou depois de eu para cá vir, e durante uma breve saída para os mares do sul.

                              ... // ...      ...// ...      ...//...      ...//...

Nunca lhe vi compunção relativamente ao seu novo estado, nem tão pouco em Novembro, no Dia de Todos os Santos - livrou-se de amarras, deu-se ares de gente, começou a praticar ginástica na Associação da Marmeleira, era um vai-vem fora do comum e de todos os seus hábitos de todos os dias.

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Foi viver para casa de um dos filhos, algures, e aparecia de quando em vez, com vestidos e/ou "trajes de luces" pendurados no cabide do carro, que ficavam, noite e dia a acicatar eventuais invejas, ou a curiosidade dos vizinhos, bem como sacos transparentes com sapatos, de salto, (nada usual nela), de passeio ou "cocktail" - o outro filho, vendo o "escaparate", julgou-a doida.

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Um dia arranjou cadela para passear - da qual se cansou depressa demais.
Nessa altura deixava o meu carro sempre fora do parque, para evitar mais estragos.
Ela procurava-o, (bem como muitos outros); um dia, após o passeio com a cadela, fui verificar se eram boas as intenções dela .... - tinha pontapeado uma porta lateral.

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Pretende fazer-se de grande senhora: deu carro novo ao filho, (creio que é o mais novo - que não é parvo, não senhora?!...), motas à nora e ao filho,

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Faz crer que nada em abundância.
Engordou.
Uma baleia viva, mexendo-se lenta e arrastadamente.
Desapareceu no horizonte e é o que importa.
Não deixou saudades.
Já não se sente bem por cá.
Voltou a mascarar-se, (quando por cá aparece), como outrora - a gebice é o seu traço primordial.

27/12/2011, (08h:28')

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Oração-Desencanto

Porquê, meu Deus?
Porquê toda esta mentira,
Vil, desnecessária e sólida?
Porquê a descoberta imperecível
De sofrer, desmerecendo-o?
Porquê as pálidas curtinas do tempo
Descendo graves, opacas sobre a sombra
De todo este desencanto?
Porquê tanta hipócrita carnalidade
Roçando-me com laivos de
Pseudo-individualismo, pseudo-importância,
Pseudo-privacidade, pseudo-resistência
Pseudo, pseudo, pseudo eu

E querem, assim, meu estro se desfazendo
Em surdas ânsias de protesto
Em caladas fúrias de não dar nada
Em revoltante mentira, também!

E querem-me assim:
Mentindo, mentindo, mentindo sempre!
Onde, Justiça dos Céus?!...
Onde, Verdade Imaculada?!...
Onde, Serenidade Inconspícua?!...
Onde Eu, que já não sou nada?!...

01/09/1989, (22h:59')
- já divorciada, (havia cerca de 12 anos); o meu desencanto perante a vida que me queria aglutinar à
  maneira de estar, inconsequente, das pessoas com quem lidava, ou os elementos dos meus grupos de
  amigos; é facto que teria ocorrido passar-me pela cabeça em refazer a minha vida com alguém - mas
  quem? Não queria arriscar uma situação similar à experiência que tinha de um casamento conturbado - (a
  minha primeira grande, arrasadora e terrivel depressão: valeram-me os meus pais), -  de uma rela-
  lação incompleta, de um namoro frustrante.
                                                                                                  31/01/2012, (07h:37')

domingo, 29 de janeiro de 2012

Despontar

Uma tarde morna e amena...
A brisa tíbia e tépida dum entardecer cor-de-fogo...

O mundo diáfano do crepúsculo
Desce mansamente,
E, lentamente, força
Utopias encadeadas
Numa alma só...
Na abóbada enevoada
Desse coração tão pequenino
Duma pré-mulher
Habitam anseios dourados
Pelo esplendor radiante
Desse âmago sonhador,
Descontente, insatisfeito...
O transcendente mistura-se ao real,
O falaz ao gáudio de poder sonhar quimeras...
A quietude do ambiente,
A paixão, o fogo da alma dum poeta
Vivem nessa mesma alma.
A abóbada coalha-se,
As conjecturas fazem sofrer,
Os olhos inundam-se dm halo doce de quieta tristeza...
Nimbam-se de fulgor as amêndoas castanhas
Desses olhos de menina...
Um fulgor feito de cristalino aljofre,
Que rola, interminável,
Pelas faces desbotadas
Até morrer, acre, adusto,
Nos lábios mornos
Com um vinco de amargura...

27/09/1968, (no meu 6º ano do Liceu Almirante Gago Coutinho, em Nampula)
- embora me considerassem "bicho do mato", por ser caseira, estudiosa, empenhada e perfeccionista, e ser pouco dada
  aos passatempos habituais da gente da minha idade, (que eu considerava "lana caprina", e pouco motivadores para
  preencher a minha vida), a verdade é que me sentia, normalmente só, desenquadrada; as minhas colegas cansavam-me,
  com os probleminhas com os namorados e os vestidos; os rapazes, salvo raras excepções, só queriam acrescentar
  registos ao "curriculum genético" - também não estava "p'r'aí voltada"; tinha outros propósitos! E, mal por mal,
  dedicava-me à família, a ler, a praticar desporto, veranear por onde bem me apetecesse, consultar livrarias, ir ao
  cinema, etc...
- contudo, a nossa casa estava quase sempre cheia de gente - os meus colegas adoravam os meus pais; eu aproveitava
  para discutir com eles dúvidas que tinha, ou ensaiar, (quando era caso disso), peças em que entrávamos
                                                                                                                                         30/01/2012, (07h:15')

(Poema sem nome)

Se para te amar eu sofro
Para quê viver?
Se viver é amar
Para quê sofrer?
Se viver é sofrer
Para quê amar?
A triplicidade que se conjuga
A triplicidade que me mata
A triplicidade de me sentir só
A triplicidade que me sufoca
Na angústia da morte
Que se deseja e não se quer,
No marasmo brutalmente entediado
Das feridas em chagas sangrentas

Porque tenho eu vinte anos?
Para quê?!..., se me sinto causticada
Azeda, como vinho podre que tresanda a fel
E já não inebria na luz pertinaz dessa longínqua quimera,
Que morreu quando nasceu?
Sinto-me só, aflitivamente só!!!
Medonhamente só no meu orbe de sonhos sós!
Só, só e só... sempre só...EU!!!


22/03/1974, (01h:51')

Acróstico (de verso branco)

Já sinto em mim a vi vência adusta de uma sombra
Onde tu poisaste toda a tua tresloucada e arrebatadora paixão,
A quem queres ainda amar, sabendo que não és capaz...
Ou será que tu deixaste de ser tu, para seres quem oniricamente idealizaste?

Para ser essa sombra só me falta o teu desprendimento...
E talvez na vida tudo sejam sombras, (quem sabe?)
Dou-te aquilo que sou, quero e posso...
Resta-me só saber se tu, ao menos, o sabes aceitar
Ou guardar, mesmo contrafeito, com ciosa e utópica galhardia

27/05/1971, (01h:40')
- ao meu ex-marido, ainda em tempo de namoro
- relação pouco madura, da parte dele; aliás, como em tudo, nunca foi capaz de "agarrar o touro pelos cornos", fosse ela a
  situação que fosse
- para mim, iniciada nestas lides de namoros e quejandos, com imagens e realidades magníficas em casa, foi um perfeito
  desconchavo