sábado, 26 de maio de 2012

Um conto de quando em vez (excertos)

Encruzilhadas
Conheci em tempos um casal, que admirava sobremaneira - eram como o reflexo um do outro, a continuação do espaço por preencher um do outro.
Almas gémeas, como sói dizer-se, é outra coisa - são simultâneos, saco e baraço.
Estes dois seres eram consentâneos, inesgotáveis, causas e consequências um do outro: complementos perfeitos.
.........
Admirava-os como se admira uma obra de arte:
- não era o corpo, (apesar de vistosos e interessantes, os dois);
- era outra coisa, secreta, deles, que se projectava com a força da sua relação.
Ela, vivendo uma relação doentia, até ao extremo, decidiu que , "ou dava fim à vida, ou o primeiro homem que lhe aparecesse numa esquina a levaria a quebrar amarras".
Ele, solteirão empedernido, preferia o convívio com os amigos; "elas eram um perigo, e um possível declive sem objectivos que o preenchessem, um declive em plano bastante inclinado, e sem retorno. Preferia estar na sua e na dos amigos".
Decidiu-se ela, desesperada, um dia, a sair, sem bem saber para onde.
Cruzaram-se numa esquina, (mesmo!).
.........
Ele seguiu-a com o olhar. Procurou-a vezes sem conta. Encontrou-a.
Um chá hoje, um café depois, foram trocando experiências, conversas, palavras que pretendiam aligeirar recordações.
Decidiram juntar os trapos. Foi difícil, devido à relação dela: uma luta insana, com ameaças pelo meio, polícia, tribunais - "ossos duros de roer".
..........
Passou-se isto tudo durante as convulsões após 25 de Abril - tempos difíceis?!...
Encontrei-os recentemente.
A mesma luminosidade irradiante, a mesma harmonia.
Ainda vale a pena acreditar que temos "um sol em cada esquina"!

20/03/2012, (01h:18')

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Acreditar

Quis de novo acreditar
Nos outros, nas coisas, na vida
Encontrei mais razões p'ra duvidar
E vou, assim, temperando a dúvida

Não quero mais saber
Se vou por aqui, ou por ali:
Vou... até a alma me doer
Nas sombras do que vivi

Num tempo em que supus
Que me davam, como dava:
Foi preciso que se desfizesse a luz,
Que trazia comigo, e me consolava

Hoje estou num qualquer espaço,
Num qualquer dia, a qualquer hora:
Sobrevem sempre um cansaço,
Que se avoluma na demora

Nos entardeceres desencantados
Em que mergulho como penumbra
Já gasta de tantos enfados - 
A vida já não me deslumbra

04/05/2012, (19h:03')