Encruzilhadas
Conheci em tempos um casal, que admirava sobremaneira - eram como o reflexo um do outro, a continuação do espaço por preencher um do outro.
Almas gémeas, como sói dizer-se, é outra coisa - são simultâneos, saco e baraço.
Estes dois seres eram consentâneos, inesgotáveis, causas e consequências um do outro: complementos perfeitos.
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Admirava-os como se admira uma obra de arte:
- não era o corpo, (apesar de vistosos e interessantes, os dois);
- era outra coisa, secreta, deles, que se projectava com a força da sua relação.
Ela, vivendo uma relação doentia, até ao extremo, decidiu que , "ou dava fim à vida, ou o primeiro homem que lhe aparecesse numa esquina a levaria a quebrar amarras".
Ele, solteirão empedernido, preferia o convívio com os amigos; "elas eram um perigo, e um possível declive sem objectivos que o preenchessem, um declive em plano bastante inclinado, e sem retorno. Preferia estar na sua e na dos amigos".
Decidiu-se ela, desesperada, um dia, a sair, sem bem saber para onde.
Cruzaram-se numa esquina, (mesmo!).
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Ele seguiu-a com o olhar. Procurou-a vezes sem conta. Encontrou-a.
Um chá hoje, um café depois, foram trocando experiências, conversas, palavras que pretendiam aligeirar recordações.
Decidiram juntar os trapos. Foi difícil, devido à relação dela: uma luta insana, com ameaças pelo meio, polícia, tribunais - "ossos duros de roer".
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Passou-se isto tudo durante as convulsões após 25 de Abril - tempos difíceis?!...
Encontrei-os recentemente.
A mesma luminosidade irradiante, a mesma harmonia.
Ainda vale a pena acreditar que temos "um sol em cada esquina"!
20/03/2012, (01h:18')
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