segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Vai-vem

No esparso vai-vem da minha vida hoje há situações de desconforto, que, desabituada, não se coadunam com o que era e com o que fazia.
Vou: perguntando-me sempre porque vou - que estranhice de mim mesma, como se de mim se erguessem sombras, energias diáfanas, em que já não me reconheço. O espaço que o meu corpo ocupa não me incorpora, como se outro ser ali estivesse, e não eu. Distanciei-me de mim de tal sorte, que os outros me parecem visões ou nem isso - esboços de bonecos que se diluem espraiando-se de sucedâneos inconsequentes
Estou: estou? Não sei até que ponto - desenformada, insensível numa pertinência causal, como sombra, como fantasmagórica visão de mim mesma. Vazio, inquietude, vontade de partir sem partir; quero estar, mas não me sinto: às vezes só um nó na garganta persiste ou uma lágrima peregrina desce inadvertidamente pelo meu rosto, sem que eu entenda porquê.
Venho:regresso na intemporalidade, como se não tivesse ido, esfumada, insensível, adínama. Resta-me a sensação inusitada e sempre repetida de que um tempo antecedente se foi como um estalido de dedos...
Estou: de volta ao beco das minhas sensações, numa dormência permanente, uma sonolência que persiste em anular tudo - pouco importa o quê: sou eu que, em absoluto, me arredei de tudo, me enfado de tudo, me abstraio de tudo... Programo, tento sensibilizar-me para empreendimentos, compromissos, razões para ter consciência que os meus pés ainda se movem, que as minhas mãos ainda me lavam o rosto com que desperto a (des)horas... "nisi utile est quod facimus, stulta est gloria", (Fedro).

29/10/2013, (00h:45')   

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A um poeta

Contem cortes, como convém: estão explicitados nomes, que deverão ficar omissos...

É, de facto um grande pintor
Da noite, de preferência,
Tem por musa a deusa Athor
E o resto... é incidência

Já cansei de ler os versos
Que faz muito ao seu jeito
Depois, são tão complexos,
Que cansam: já não me deleito...

Poetas da nova vaga
Há muitos, com novos rostos
Dizem, repetem, voltam à carga
E deles não entendem os toscos

Vão em busca de um saibo
Para descortinar o que diz
Há desconcerto, ressaibo
No que faz e não condiz

Com todo o seu catecismo
............
Cansei do seu lirismo
Sempre igual - lê-o já quem quer

Desisti já de lê-los
Desnuda-se, e cansam, enfadam
Gosto mais deles singelos
Que muito mais me encantam

11/10/2013, (19h:30')

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Um Conto de quando em vez (excertos)...

O padeiro dos Carrapatosos

Muito "sui generis" esta família...

...................

Ele, o Zé das Donas (com C), ressabiando a enjoos, mal-querenças pseudo-empáfias......

...................

O telemóvel é o adereço indispensável, quer seja à janela do quarto, na rua, no carro, mas em alto e bom som, não vá alguém prestar pouca atenção ao que diz... Arranjou o auricular, um trambolhozito para surdos, já que parece que lhe convém, também, fazer reclame a tal aparelho.
Ela, "nem tuge, nem muge" - duvido já que o oiça, ou que alguma vez o tenha ouvido, ou prestado atenção......
Quase sempre de "jeans", uma "bandolette" com um lenço, (uma das muitas variantes à escolha em qualquer loja chinesa; e tem vários lencinhos à "xaloia", para variar o visual......

.....................

O filho, duvido que se abstraia destas realidades; contudo, desde que lhe "encham a mula", vai vivendo santamente, arredado de amigos e amigas.
A cumplicidade com o pai, ......, é duma revoltante falta de respeito para com as outras pessoas. Um dia destes dias assisti à concupiscência de ambos, desaforadamente, relativamente à Dª Fusa, mulher com idade quase para ser avó do "puto"......

....................

Mas vamos ao padeiro.
Pois é: PS por conveniência, da lista cá do burgo, para ter passaporte para outras andanças e benesses.

....................

O neto foi estudar para fora...... Zé das Donas (com C) comprou charuto, fez alarido no café, que "o rapaz ía ser doutor"......
Mas a mãe andou feliz - se as janelas já pouco se abriam, se os cuidados com a casa seriam poucos ou nenhuns, quando o "puto", (chama-lhe o pai, ......), foi para a capital, a coisa piorou: quer dizer, não para a Maria Carrapatosa - entregou-se leda e liberta de entraves, aos langores da alcova: esqueceu pai e mãe, e tudo o resto; viveu do revivalismo do namoro.
Mas o "puto" voltou à base, e, por insólitas e desafrontadas sem-vergonhas, ...... relegando cuidados com o filho, ......(obrigou-o) a asilar-se em casa dos avós.
O padeiro acolhe, e recolhe, frutos de destemperança completa - mas está salvaguadando o "status" da filha, e isso é que importa. Casamento é isso mesmo: para a fêmea querer o macho, e que ele nunca lhe falte no "vale dos lençóis"!


In Contos em Nites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho de 2012
Composição: Fast.Livro 

sábado, 14 de setembro de 2013

Viver

Viver às vezes é difícil quando nos rendemos à limitação dos horizontes estreitos que nos são impostos - reduzem-se as possibilidades de cumprirmos, ou o que nos era costume, ou o que nos determinamos a conseguir. Reformular, reestruturar estratégias para prosseguir o caminho torna-se demasiado restritivo.
Um princípio temos como certo, enquanto vivos: respiramos - mal ou bem, já não importa.
Três imperativos, para que o continuemos a fazer, se impõem:
- um, dormir
- outro, comer
- outro, ainda, trabalhar
Mas...
- dorme-se quando, como, se as nossas mais íntimas capacidades são coarctadas? Para que o sono reponha energias é básico que, impositivamente, o corpo reclame repouso, efectivo, absoluto. Se os mecanimos mentais não proporcionam relaxamento, não abrandam o seu matraquear, é insuposto que isso seja viabilizado;
- comer o quê quando a despensa já passa a ser um lugar excessivo numa casa? Nas novas construções foi uma redução que foi efectuada em muitas situações, por muito estranho que pareça;
- trabalhar como se querem fazer de nós cigarras? Começamos por assimilar o que erraticamente nos impõem, sibilam os nossos órgãos, rosnam as nossas vísceras roendo atritos, respondem lentamente os sentidos, deixando para depois a vida que nos passa ao lado.
Nunca surgiram tantos fóruns, tantas sessões de esclarecimento, tantas tentativas de motivação?! Outras cigarras em busca de "quorum"! E algumas fazem-se pagar, e bem, para serem ouvidas. 
Se o dinheiro, ( a mola que faz girar, criar, progredir o mundo), falta, é bem capaz de até acontecer que as cigarras deixem de apitar, desassossegadamente, nos arbustos e nas árvores. São monótonas, cansativas e irritantes, não?
Descanso, silêncio, ar...



Vale Vite, 15/09/2013, (07h:15')
-

domingo, 4 de agosto de 2013

Um conto de quando em vez... (excertos)

O Lavrador Enganador

O meu primeiro contacto com o casal aconteceu através do filho mais velho, na praia, quando eu, já desesperada com a praga de moscas, .....................................me decidi a voltar para casa.
Poisei o saco para conseguir subir pelas rochas - ................................... - quando deparo com o garoto, que o tinha na mão e mo entregava.
O segundo contacto foi de fugida à porta de casa - vivem noutro edifício, mas vinham deixar o jipão, ............., à minha porta, .............
Comecei depois a notar um certo cerco - procuravam as mesas perto da minha se almoçava ou jantava fora; a minha mãe, ............, conheceu uma senhora, que visitava quando cá estava; a mulher do Lavrador deu-se de amizades com a dita senhora, ............. , para, ............., se aproximar de nós.

.......................................................

............, por causa do vendaval ciclónico, toda esta região foi afectada.

......................................................

Foi um pedinchar de subsídios, e uma perfeita boda aos pobres.

......................................................

Não acredito que numa família onde só o homem trabalhe, (da lavoura), com dois filhos, possa auferir rendimentos que possibilitem ter uma casa, dois carros, ir jantar ou almoçar fora todos os fins-de-semana.
Aconteceu, no entretanto, numa das minhas incursões pelo campo, ter descoberto que andavam, às recôndidas, a construir uma vivenda, enorme. Não ficaram muito à vontade quando me viram - grandes subsídios teriam sido, a pagar por todos nós, ................

O terreno não será de grandes dimensões, a julgar pela produção que consegue acomodar numa carrinha de caixa aberta - quando vai cheia; a maioria das vezes leva caixas vazias, ou nada.
Ou muito caro vende os produtos, ou outras negociatas haverá?!...
Mas de estratagemas, vilanias e vidas duplas são estas mentes férteis...

Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho de 2012
Composição: fast.livro

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um conto de quando em vez...

A Dama da Noite

Bronca, ....vi-a sair muitas vezes à noite, coisa pouco habitual nestas paragens.
Sei que não são do mesmo pai, as crias; provàvelmente fruto dos vários giros nocturnos por bares de "alterne", ou outros piores.
Por aqui não há discotecas inócuas ..........ou são paragens de juventude imitando os "clips".......... ou são "casas de passe", autênticas, para tudo o que possa ocorrer, ou passar pela cabeça de qualquer desbocad(o)/(a).

................. frequentava, vivia e sustentava-se e aos filhos, dos proventos adquiridos a troco de favores inconfessáveis.

.................

O resto do dia passa-o cirandando em busca de contactos - o "marketing" personalizado - .............. Ouvi-a, por mais de uma vez, concertar e formalizar despachos para as duas da manhã, e mais tarde.

.................

Pagam os filhos da vida de "limpa-paredes" e de "encostos de esquina", em busca de quem subsidie a vida que se propõem atingir. Trabalhar?!.........

.................

............ para quê se o pendente com que Deus os dotou é o melhor "body-credit" cá das bandas?

.................

Muitas outras damas semelhantes pululam nesta Zona - as saídas profissionais viabilizadas por conceitos estereotipados que já quase são impossíveis de serem alterados: ou se vive deste modo, ou estamos tramados!

08/12/2011, (14h:33')

Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho de 2012
fast.livro@gmail.com


sábado, 29 de junho de 2013

Um conto de quando em vez...

Porque hoje tive um dia delicioso, (apesar da "sopa" até chegar à Casa dos Bicos, que me desestabiliza completamente a tensão arterial, e me põe - "a idade não perdoa..." - tonta, como bêbeda, (o que nunca aconteceu, quando bebia, e bem!) - vou  transcrever, das minhas Notas Finais ao meu primeiro livrinho, algumas breves passagens. Composição da fast.livro, que, apesar das muitas correcções por mim efectuadas, fez caso omisso das longas e cuidadas observações que fiz, "corrigindo", também, alguns vocábulos.. 
Adiante, que amanhã deverei ter muito que fazer e hoje deixo que a pena aligeire o meu cansaço:


Não tenciono a destruição, prefiro a reacção óbvia às contrariedades por que tenho passado; muitas, dolorosas, que jamais se apagarão - a minha memória é o meu pior castigo: não esqueço nunca o mal que me fazem. Perdoar? Nem Deus perdoa....

.................................................


Tinha a minha vida organizada, limpa, sadia, preenchida, liberta de preconceitos abstrusos: quero-a de volta!
18/01/2012, (03h:38')

Contos em Noites de Lua Cheia
Junho de 2012
ISBN: 978-989-20-3163-7

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Solstício de Verão - 22 de Junho de 2013

Tinha, inicialmente, decidido ir rever gente amiga durante os festejos do Solstício, na A.D.F.A.

Entretanto surgiu-me o convite do C.C. da Malaposta - bem mais perto de casa.
Poesias do Mundo, com José Fanha, como "diseur", acompanhado, na percursão, por José Ferreira. 
Parques cheios, muita gente, e os desalmados nem se dignaram a dar qualquer justificação: pura e simplesmente, não apareceram.
Nunca se perde tudo.
Estive em réplica poética com uma espanhola, e mais algumas amigas. Mas, mais importante que isso, neste "concerto" improvisado, revi e estive em cavaqueira com Elsa de Noronha, a filha do grande poeta moçambicano Rui de Noronha.

Não vi o diabo do José Fanha. Vi alguém que adoro ouvir declamar: Elsa de Noronha! Que belos momentos passados no Centro Cultural Luso-Moçambicano, e na Embaixada de Moçambique?!...


Não sei se voltarei à Malaposta para ouvir o Fanha - não merece consideração! Vésperas de festejos!... Perdeu-se nos copos, ou a brincar com martelinhos?!...
  

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Santo António

Coitado de ti, Santinho
Querem-te p'ra casamenteiro
Julgam qu'a bilha é de  vinho
Fazem de ti um brejeiro

Não sabem que não querias
Ver a família, tão pouco
Afinal tu só querias
Estar fora do mundo louco

Nossa Senhora ditou
O  pior dos teus ofícios:
Apelar a quem rezou
Para encontrar benefícios

Ou gente que se perdeu.
E tu, Santo adorado,
Mesmo sem o solidéu,
Cumpres tudo com agrado

Devolves ao pobre e ao rico
As benesses em descaminho.
Em casório e namorico
Querem-te para padrinho

Que sabes disso, tu, Santo?
Fazem versos, queimam flores
Para afastar o quebranto
Dos desditosos amores

Quem se perdeu, é achado;
Sanas males do coração;
Quem tem dores, é curado;
Tens p'ra tudo aliviação.


Vale Vite,
13/06/2013, (05h:42') 





domingo, 19 de maio de 2013

Um Conto de quando em vez... - excertos

Larissa Morena

Mestiça, porca - consta, pela agência que veio limpar a cave,  .....

..................

Vestiu-se de peles, desfrisou e pintou o cabelo, saracoteou as adiposidades, gingando como na tabanca, rindo e gargalhando das brancas.
Esqueceu-se, contudo de dois apêndices que não negam as suas origens - o mais velho, de traços negróides, de pernas cambas, de comportamentos desviantes, é renegado como um aleijado; o mais novo, embora loiro, (daí que ela afirme que é branco), é uma verdadeira aberração como criança: .....contudo tem, também, traços de mestiçagem, inegáveis.

...................

Foi levando surra daqui e dali - .....

...................

Trabalhou num jardim de infância,..... - a falta de tacto para lidar com as crianças era notória; .....
Está, de momento, na cozinha do centro de dia para idosos, bem perto daqui.  ..... o cemitério precisa de ser expandido... (1)


(1) - já não se encontra lá - valiam-lhe as balsas com almocinhos e jantares; pelos vistos, também "deu de cabra". Não gosta, nem quer fazer nada - chega-lhe o branco....

In Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Fast.Livro
Junho 2012

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Terra amaldiçoada!

Recomeçou o fandango com as imbecilidades destes sarnentos!
É muito mais do que é possível aguentarem dez pessoas juntas, quanto mais eu, "três reis de gente".
Não dá mais!

Decididamente!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Um conto de quando em vez - excertos

Ciganos Letrados

Parênteses: convém frisar que isto nada tem de ostracismo, racismo e outros "ismos"!

..........................

Encontrei-me com eles nas escadas uma primeira vez, depois de quase um ano de permanência no Vale das Sombras.
Estranhei: tinha-me apresentado com cópias de uma carta para todos, que introduzi nas caixas de correio, e não obtive qualquer resposta ou sinal - pareciam fantasmas.

.........................

(A ele) chamam-lhe o "espanhol" - porquê, não sei. Fala bem o Português, ..... Por ter uma viatura com matrícula espanhola? Calhando, terá sido arranjada na candonga?!...
Enfim: tem sido um desassossego - creio, até, que deu em construir um campo de golfe ou pelota em casa... Que fará uma picareta num apartamento? Vi-o sair com ela ao ombro, certo dia, depois de vários estrondos do partir da pedra... Depois foram as tacadas e as bolas, pesadas, que ouvia deslizar - estou no rés-do-chão, eles no terceiro, do mesmo lado.
Depois foram as paragens que sentia à minha porta, à subida e à descida, e as escutas à janela traseira da minha casa - andava inquieta: não vou dizer que não acredito em bruxas, mas que as há, há! Até que,...., o mistério se dissolveu por si mesmo: eram, (não sei se ainda são...), Testemunhas de Jeová. Os "recados" ficavam à minha porta, sobre o tapete de entrada em forma de "santinhos" de folhas dispersas e recortadas.....
Comecei a perceber do que viviam, já que nunca me apercebera que saíssem para trabalhar....; o miúdo..... via-o livre e solto andando por aí. Fazia-me confusão, ....tanto mais que..... é frequente a abstenção e a recusa em irem à escola - as autoridades não interferem, "a bem dos costumes"...

.............................

Noite fora ouviam-se batidas na parede do quarto, comum ao prédio contíguo, .... ;incomodados, os vizinhos do lado começaram a socar na parede acompanhando de um "pouco barulho!", que se tornou habitual, também - ....... : foi um arreda-para-cá a cama à noitinha, e um arreda-para-lá manhã cedo, ou quando a Jelly Mare se dispunha a encetar o seu dia.....
Faz-me confusão pensar que o filho, adolescente na idade mais crítica da puberdade, possa partilhar destas manobras sexuais. A promiscuidade é um prato forte, ...., nesta região......

.............................

..., se tenho roupa lavada no estendal, de pronto se lembra de sacudir tapetes e a roupa de cama, limpar sapatos e o que mais lhe der na gana, para cima do que se encontra a secar....

.............................

Jelly Mare - este ápodo deriva do facto de ser uma mulheraça, cujas carnes, sendo muito embora relativamente nova, têm um aspecto flácido, e tremem todas quando se movimenta.


In Contos em Noites de Lua Cheia - "O Vale das Sombras"
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho 2012
  

domingo, 14 de abril de 2013

Um conto de quando em vez...

Piggy e o Porco

Seis anos de histórias mal contadas, de vizinhos grotescos...

........................

Dona Piggy causou-me sempre uma estranheza sem limites.

........................

... assisti, mais do que uma vez, a um acarretar e juntar de lixo diverso junto do carro - que imaginação doentia teria a "madama" não sei. Outras vezes eram garrafões de água, vazios, pendurados às molhadas nos espelhos retrovisores do carro - cri que a senhora se tinha passado de vez, ou antevia um corso carnavalesco recordando os aguadeiros de antigamente...
Assentou arraiais com um "matcho" que, ..... não deve nada à beleza, .... nem à delicadeza, .... nem à higiene - olhar para ele faz lembrar um limpa-chaminés após um longo e acidentado dia de trabalho.

.........................


In Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho de 2012

terça-feira, 26 de março de 2013

Há factos e fenómenos...

... que nos dão que pensar.
Ontem ou anteontem ouvi, na rádio, falar do aumento de faixas de riscos do HIV. Vida dura esta que nem para "Durex" dá, heim?!...
Só que a incidência, agora, abrange os casais; isto é: vai ele, ou vai ela "dar o corpo ao manifesto"?
Sempre me causou alguma confusão o facto de, não havendo dinheiro - dizem...-,  não se importarem de despender o que têm e não têm com as variações sexuais. 
Consta, que se ganha bastante, mas é preciso ter estômago: há filhos de muitas mães!
E  tem mais: soube outro dia que se gastam rios de água engarrafada para bochechar a boca. Santo Deus! Tanta porcaria que entra pela boca e sai por tudo o que nos constitui como matéria e só se preocupam com o refrescar as bochechas?!... Tresandam a mijo, a merda, a outras excreções inconvenientes e, da boca p'ra fora, são damas e dons?!...
A fome tem destas coisas: há subsídios de almoço acrescentado para muito quem se julgue digno de algum respeito.
Mas... mas: se o mercado se está a expandir, não terei dúvidas nenhumas em afirmar que o que é, sê-lo-á sempre, e nunca deixou de o ser .
Há tanta maneira de fazer dinheiro, ou de, pelo menos, não passar fome...
Aventemos algumas, simplistas, despreocupantes, saudáveis:
a) deitarmo-nos a dormir - o que não se poupa em energia?!...
b) lavar escadas - quão saudável é a ginástica que se faz?!...
c) arar, semear, colher - que belo entretenimento?!... Que alegria para os sentidos?!...
d) dar uma arejada à casa - olha só as coisas que posso dispensar?!... Vou feirar!
e) aliviar guarda-fatos - pois é: tanto lixo que se acumula pelos cantos, n'é? Remodele-se, o que fôr de remodelar: que fatiotas giras não se arranjam?! 
f) arrumar sapateiras - xi?!... quanta centopeia não temos em casa?!... Ofereçamos a quem precise. Feiremos, também!
g) cadê aquela minha carteira, ou mala-de-mão? Pois é: se houvesse duas ou três, sabia-se sempre onde estariam... Desmanchando todas e montando-as em retalhos, que adorável malão, ou baú não construiria para guardar as roupas de cama de uma estação?!...
h) tanta manta, tanto lençol: outros trapos darão!
i) adereços - ah?!... vou enfeitar as paredes!
j) quadros: transforma-se num painel! Ou num biombo para o cantinho do (desas)sossego!
k) tanta mixórdia - "tudo vale a pena..."!

Mas não: "sexo é bom, é carnaval, mesmo que seja invasão"!!
(Como diz a cantora brasileira).

27/03/2013 (03h:01')

quarta-feira, 20 de março de 2013

21 de Março de todos os anos...

Todos os anos se celebram três factores importantes da vida de cada um de nós; a saber:
a) o Dia da Árvore,
b) o Dia da Indiferenciação Racial,
c) o Dia da Poesia.

a)
As árvores são tesouros
Perenes, duradouros
Dão ar p'ra respirar
Frutos p'ra alimentar, 

Sombras onde descansam
Dores, cansaços, males
Contudo, ignoram
E é o "não te rales"!

Cortam, queimam, destroem:
O progresso aí vem
Em casas, auto-estradas,
Vidas desesperadas

Os pássaros já não cantam
Com a mesma alegria
Não rimam e nem soam
Não há já poesia

20/03/2013, (12h:00')

b)
Indiferenciação Racial...

Cristo! Como????
Negro é negro! Branco é branco! Amarelo é amarelo! E abençoados os "peles-vermelhas"!
Sou racista, sim, srª! Por muitas e variadas razões:
- a minha cultura é e será sempre diferente da de outra qualquer raça! Miscigenização? Tudo bem: mas o verdadeiro cariz, a gema pertence a outra qualquer raça - a minha é a minha; a do outro, é a do outro.
- Admiro, deslumbro-me com as outras culturas, mas acho que devem preservá-las, custe o que custar!
São elas que nos diferenciam, que nos dão identidade, que nos fazem respeitar, quer antepassados, quer a história de qualquer um de nós.
- Somos o que nos está na base - as raízes permanecem, mesmo que as tentemos destruir. Podem não reverdecer, refolhear, entroncar.... mas estão lá, silentes, expectantes, adormecidas: não desaparecem por artes mágicas, quer o homem queira, ou não.

c)
A Poesia...

Onde, depois de toda a merda que fazemos?

Que se fodam os poetas
Mais todos os literatas
Vivem de pernas abertas
E só dizem pataratas!

20/03/2013, (12h:10')


 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um conto de quando em vez

Rita, a bimba do nordeste
Vai fazendo filhos que trazem consigo o estigma da anormalidade genética, crendo que, assim, cumpre a sua missão de mulher.
.......................
Apregoa fartura, pão e vinho e Deus sabe as contas que ficam no rol da mercearia, sem nunca chegarem ao termo da liquidação........... Que aguente quem quiser - ela deve e não teme.
Mas tem carros, dois, e uma carrinha. E trapos vistosos, comprados a prestações a perder de vista - um rol de aflitos.
E haja mais empregadores como a Santa Casa da Misericórdia!
.......................
.... na do meio, (tal qual a Rita em miniatura à primeira vista), a coadjuvar as anomalias observadas no irmão, nota-se uma tendência perniciosa para a estimulação e/ou excitação dos órgãos genitais: tanto lhe dá que seja com a "raquette" de ténis, como com o selim da bicicleta, ou qualquer outro objecto que lhe vá às mãos em horas críticas; fá-lo onde bem lhe apetecer, diante de todos - .........
.......................
....... ao pai, a esse, tanto lhe dá que sim, ou que sopas - quer é descanso e sonos longos, sem sobressaltos, quando não desanca a Rita, que, no dia seguinte, diz que está doente, e anda de óculos escuros.

Pois... vida feliz a dos néscios aqui do nordeste!

In Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho de 2012  

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Um Conto de quando em vez...

Zé das Tintas Não Usa Robbialac

E como pinta?!... sempre com mais olhos que barriga!
....
... prescreveu no seu registo que haveria de conseguir o que o burgo inteiro pretendia debalde ....
....
Ao que parece a mulher, remetida ao esquecimento, - chegava de madrugada, saía manhã cedo - aceita todas as variações que o Zé das Tintas se proponha arranjar. O rapaz tem a mania que é o Don Juan cá do sítio...
....
... para ele todas as mulheres são um desperdício, uma nódoa na existência humana, mas das quais se serve sempre, à falta de melhor local onde vazar os seus lixos biológicos.
Nem o respeito recata a mulher.
....
Tão tamanho é o desaforo que pretende ultrapassar barreiras inconspícuas, surripiando, na calada da noite, os bem-intencionados que, em trabalhos de construção, relegam, em descanso, os seus materiais. O desconchavo é tanto que uma tarde destas, a despropósito, me falou de ter deixado o outro cão no armazém - sei...: deverão ser as arrecadações de algum edifício, como fazia aqui, no prédio onde resido, e de onde o vi sair, mais de uma vez, com caixas - às escondidas, e na calada da noite.
Um dia perguntei-lhe se trabalhava na construção civil: "que não, numa fábrica de tintas!"
Estranho... que empregado sai às duas, três ou quatro da manhã para ir buscar embalagens de tinta, ou outros materiais?
Pois é pintor?! É sim, senhora?!
E como pinta?! As tintas é que perdem a côr...
....
Não usa Robbialac, o amigo...

In Contos em Noites de Lua Cheia - O Vale das Sombras
ISBN: 978-989-20-3163-7

domingo, 13 de janeiro de 2013


Eu sinto-me inexoravelmente só
De uma forma amorfa de já não sentir nada
E uma dor que arde e que dói
Uma lágrima quente que fenece no saco lacrimal
E um ritus de amargura sobraçando desencantos translúcidos no olhar

E eu sinto-me só
E eu quero viver
E eu quero amar
E eu quero gente em meu redor
E quero sentir dor, dádiva, ternura, amor
Quero não ser eu, mas alguém projectado de mim
Nas vibrações esparsas de mim divergentes
Nas lucubrações incessantes
Da extemporaneidade das minhas sensações


Um vácuo incómodo,
Uma tortura da minha volição atrofiada
Um sonho que remanesce em acto interrompido, irrealizado
Tristeza amalgamada em raiva, inércia, amorfismo

25/08/1983, (22h:00')

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cuidado com as imitações

Deixa-te de presunções
Põe de lado a arrogância
Cuidado com as imitações
E age com muita prudência

Princípios?!... Sei como são:
Gerem sempre a contratempo
Não são mais qu'ilusões
De quem não tem qualquer tento

Nem mãe soubeste ser
E, pelos vistos, nem mulher
Avisei-te: não quiseste saber
- Era eu o mal-te-quer...

Deixa-te de ilusões
Serôdeas e mal concebidas:
O mundo é de realizações,
De verdades bem assumidas

Deita-te a dormir! É melhor...
"Que não há mal que sempre dure"
Se a realidade fôr sempre maior
Que uma quimera que perdure

Agradece a Deus e à vida
Teres um "amor de raíz", (???...)
Meu Deus! Ai se tudo numa lida
Não te roçasse com o cariz

De mula velha e sabida?!...
Ignorante! Deixa-me em paz!
Vai à tua puta de vida!
Faz com quem o que t'apraz!

Não toques em mim, sequer,
Nem que seja mesmo de raspão!
Outras também quiseram ser
Da minha vida um refrão.

Pois é: cama de ilusões,
Fortuitas, gastas, passadas...
E, sem saber, tu supões
Ser a eleita entre as desejadas

Coitada de ti, amostra de gente,
Que persegues quem menos deves
Olha-o bem, bem de frente
E verás ironia, embuste, disfarces.

Tola, cega, surda, presunçosa
- Pretendes dourar a canga
E não passas de mentirosa:
Já basta de tanta tanga!

01/06/2012, (23h:35')
- quem será este espinho no roseiral da minha vida???
- a propósito dos "saques" sucessivos às minhas ideias, expostas em grupos públicos, ou nos meus "blogs"

Tem graça?!...

Andam todos em porfia
P'ra me esgotarem os sentidos
No final, quem mais pia
Fininho, mostra delírios sofridos

Guardados a ferro e fogo
Dentro do peito. Aspirações
São desejos talhados tão logo
Que dão lugar a desilusões

Fica-se sempre pela rama
Vai-se o sonho e a magia
E em toda esta trama
Sou eu que aguento a porfia

De quererem, uns mais que outros,
Neutralizar-me a frescura
Do dia que rompe dentre outros
Trazendo-me a bendita ventura

De esperar sempre algo de novo
Todos os dias em cada dia
Em que me esforço e renovo
Por manter a minha alegria

De receber com fleuma, bonomia,
Respeito, civismo, credibilidade
- Deparo que em tudo é nostalgia
Doutros tempos, outra civilidade

03/06/2012, (15h:43')
- exasperada com a persistência da Graça M Araújo em fazer-se de ("santinha") casamenteira

(Teatrinhos para entreter sexalescentes)

outra vaca intentou
fazer de mim tolinha
a sorte não a bafejou
com o amor do "sopinha"

que a atiça e acicata
correndo p'ra junto de mim:
se ela não se percata
temos manjerona e alecrim

não comigo, que sou tola?!...
vai, de mansinho, a "madrinha"
temperar com caldo a rola
p'ra não encrespar o "sopinha"

coitado, ainda pensa
que chegou ao termo
da busca da sua tença
quando nos vimos a esmo

por momentos tão breves,
insólitos, sem densidades,
esquece-se das suas leves,
transitórias, nulas vaidades

de imaginar-se um galã
anos trinta... por aí fora
anda sempre num afã
mas, p'ra mim, não tem hora

marcada com o amor:
outros desígnios quereria
- amizade, dança, calor
para quebrar a monotonia

desta vida de enganos
em que os velhos, cegos, toldados
esquecem o peso dos anos
julgando-se eternos (e)namorados

anda o mundo doido varrido
num corropio danado
fogo fátuo e alarido
por coisas já do passado

a idade traz temperança
na vivência com alegria
acreditam na vã esperança
de refazerem tudo, todavia.


06/06/2012, (01h:15')
- personagens referenciadas: Fátima Ribeiro, (Malaposta), Juliano Louceiro, Graça M Araújo