segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Oração-Desencanto

Porquê, meu Deus?
Porquê toda esta mentira,
Vil, desnecessária e sólida?
Porquê a descoberta imperecível
De sofrer, desmerecendo-o?
Porquê as pálidas curtinas do tempo
Descendo graves, opacas sobre a sombra
De todo este desencanto?
Porquê tanta hipócrita carnalidade
Roçando-me com laivos de
Pseudo-individualismo, pseudo-importância,
Pseudo-privacidade, pseudo-resistência
Pseudo, pseudo, pseudo eu

E querem, assim, meu estro se desfazendo
Em surdas ânsias de protesto
Em caladas fúrias de não dar nada
Em revoltante mentira, também!

E querem-me assim:
Mentindo, mentindo, mentindo sempre!
Onde, Justiça dos Céus?!...
Onde, Verdade Imaculada?!...
Onde, Serenidade Inconspícua?!...
Onde Eu, que já não sou nada?!...

01/09/1989, (22h:59')
- já divorciada, (havia cerca de 12 anos); o meu desencanto perante a vida que me queria aglutinar à
  maneira de estar, inconsequente, das pessoas com quem lidava, ou os elementos dos meus grupos de
  amigos; é facto que teria ocorrido passar-me pela cabeça em refazer a minha vida com alguém - mas
  quem? Não queria arriscar uma situação similar à experiência que tinha de um casamento conturbado - (a
  minha primeira grande, arrasadora e terrivel depressão: valeram-me os meus pais), -  de uma rela-
  lação incompleta, de um namoro frustrante.
                                                                                                  31/01/2012, (07h:37')

domingo, 29 de janeiro de 2012

Despontar

Uma tarde morna e amena...
A brisa tíbia e tépida dum entardecer cor-de-fogo...

O mundo diáfano do crepúsculo
Desce mansamente,
E, lentamente, força
Utopias encadeadas
Numa alma só...
Na abóbada enevoada
Desse coração tão pequenino
Duma pré-mulher
Habitam anseios dourados
Pelo esplendor radiante
Desse âmago sonhador,
Descontente, insatisfeito...
O transcendente mistura-se ao real,
O falaz ao gáudio de poder sonhar quimeras...
A quietude do ambiente,
A paixão, o fogo da alma dum poeta
Vivem nessa mesma alma.
A abóbada coalha-se,
As conjecturas fazem sofrer,
Os olhos inundam-se dm halo doce de quieta tristeza...
Nimbam-se de fulgor as amêndoas castanhas
Desses olhos de menina...
Um fulgor feito de cristalino aljofre,
Que rola, interminável,
Pelas faces desbotadas
Até morrer, acre, adusto,
Nos lábios mornos
Com um vinco de amargura...

27/09/1968, (no meu 6º ano do Liceu Almirante Gago Coutinho, em Nampula)
- embora me considerassem "bicho do mato", por ser caseira, estudiosa, empenhada e perfeccionista, e ser pouco dada
  aos passatempos habituais da gente da minha idade, (que eu considerava "lana caprina", e pouco motivadores para
  preencher a minha vida), a verdade é que me sentia, normalmente só, desenquadrada; as minhas colegas cansavam-me,
  com os probleminhas com os namorados e os vestidos; os rapazes, salvo raras excepções, só queriam acrescentar
  registos ao "curriculum genético" - também não estava "p'r'aí voltada"; tinha outros propósitos! E, mal por mal,
  dedicava-me à família, a ler, a praticar desporto, veranear por onde bem me apetecesse, consultar livrarias, ir ao
  cinema, etc...
- contudo, a nossa casa estava quase sempre cheia de gente - os meus colegas adoravam os meus pais; eu aproveitava
  para discutir com eles dúvidas que tinha, ou ensaiar, (quando era caso disso), peças em que entrávamos
                                                                                                                                         30/01/2012, (07h:15')

(Poema sem nome)

Se para te amar eu sofro
Para quê viver?
Se viver é amar
Para quê sofrer?
Se viver é sofrer
Para quê amar?
A triplicidade que se conjuga
A triplicidade que me mata
A triplicidade de me sentir só
A triplicidade que me sufoca
Na angústia da morte
Que se deseja e não se quer,
No marasmo brutalmente entediado
Das feridas em chagas sangrentas

Porque tenho eu vinte anos?
Para quê?!..., se me sinto causticada
Azeda, como vinho podre que tresanda a fel
E já não inebria na luz pertinaz dessa longínqua quimera,
Que morreu quando nasceu?
Sinto-me só, aflitivamente só!!!
Medonhamente só no meu orbe de sonhos sós!
Só, só e só... sempre só...EU!!!


22/03/1974, (01h:51')

Acróstico (de verso branco)

Já sinto em mim a vi vência adusta de uma sombra
Onde tu poisaste toda a tua tresloucada e arrebatadora paixão,
A quem queres ainda amar, sabendo que não és capaz...
Ou será que tu deixaste de ser tu, para seres quem oniricamente idealizaste?

Para ser essa sombra só me falta o teu desprendimento...
E talvez na vida tudo sejam sombras, (quem sabe?)
Dou-te aquilo que sou, quero e posso...
Resta-me só saber se tu, ao menos, o sabes aceitar
Ou guardar, mesmo contrafeito, com ciosa e utópica galhardia

27/05/1971, (01h:40')
- ao meu ex-marido, ainda em tempo de namoro
- relação pouco madura, da parte dele; aliás, como em tudo, nunca foi capaz de "agarrar o touro pelos cornos", fosse ela a
  situação que fosse
- para mim, iniciada nestas lides de namoros e quejandos, com imagens e realidades magníficas em casa, foi um perfeito
  desconchavo