2012. Renovação da minha carta de condução
Decidi que não iria ao I.M.T.T. - é desesperante a espera.
Optei por uma Loja do Cidadão: neste caso, a de Benfica. Dois dias consecutivos, inteirinhos, a aguardar que o sistema funcionasse. Uma mole imensa de gente. Os do dia anterior, e os que se propuseram resolver os problemas que tinham, no segundo dia.
Desespero, irritação, intensificavam, mais e mais as inquietações. As funcionárias - numa fleuma admirável - tentavam, pacificamente, abstrair-se. Eram, obviamente, o alvo de todas as diatribes, insultos, faltas de educação. Por muito que queiramos permanecer indiferentes, tudo bole dentro de nós. Um frenesim louco transpirava. Sentíamo-lo, palpável, iminente.
O bom-senso, o recurso, a fuga, ou o que, pressupostamente, possamos considerar, induziu as pessoas a agregarem-se em pequenos grupos, dialogando sobre o que eventualmente ocorresse.
Uma mulher - talvez reconhecendo-me da Lourinhã - foi, cautelosamente, abordando-me, tentando meter conversa. Para mim era uma desconhecida, mas ela deveria conhecer-me, de vista...
O que se diz, se fala, se imagina sobre mim e a minha vida, é-me absolutamente indiferente, (ou forço para que o seja). Já desisti de me incorporar, de me envolver no que quer que seja na Zona Oeste. A negação é completa. O ódio - sentimento aberrante, que nunca soube o que era - aprendi-o por cá. Hoje, tudo e todos, me são indiferentes.
QUERO PAZ!
Sou de paz. Sou um ser descomplicado. Em tudo.
Inevitavelmente, há perguntas que se fazem, não para saberem o que bem entendem querer saber, mas para estabelecer contacto.
"É professora na João das Regras, não é?"
Assenti.
Questionei-me sobre o que se seguiria.
"Então conhece o director..."
"Dedução cretina", pensei com os meus botões. (Que os não tinha: nada do que envergava se fechava, abotoando...)
"Ele nunca tentou nada?"
"Nada, como?" - que diabo de conversa era esta?
Olhei para ela.
"Não há mulher nenhuma com quem ele não tente ter relações."
"Como responsável da escola, tem que lidar com toda a gente, não?"
"Não é a isso a que me refiro..."
"Sou mais velha que ele... Nunca me apercebi disso, ou não está nos meus propósitos misturar trabalho com outras coisas..."
"E ele rala-se bastante com isso?!..."
"Faço a minha vida desligada de problemas. Já basta o que basta. Além do mais, ele é casado, e conheço a mulher."
Riu-se.
"Tem a mania que é jeitoso. Todas essas coisas não lhe fazem mossa, nem o impedem do que quer que seja!"
Franzi o sobrolho. Olhei para ela, e retruquei:
"Devo ser muito burrinha, que nunca me apercebi disso."
Sorriu. Agarrou-me, amigavelmente, no braço, e decidiu-se a encerrar a cusquice:
"Se não me despacharem hoje perco a última camioneta, e amanhã tenho que cá voltar outra vez..."
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Vale Vite, 04/05/2015, (09h:07')
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